Câmara vota regulamentação do trabalho por aplicativo

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A Comissão Especial da Câmara dos Deputados que analisa a regulamentação do trabalho por aplicativo realiza reunião nesta terça-feira (16) para discutir e votar o parecer do relator, deputado Augusto Coutinho (Republicanos-PE). A votação, marcada para as 14h30 no plenário 7, define o futuro de milhões de motoristas e entregadores que trabalham por meio de plataformas digitais no Brasil.

A votação estava prevista para a quarta-feira passada, mas foi adiada após deputados argumentarem que precisariam de mais tempo para analisar as mudanças feitas ao Projeto de Lei Complementar 152/25. O adiamento reflete a complexidade e a polêmica que cercam o tema, que divide opiniões entre parlamentares, empresas de tecnologia, sindicatos e movimentos sociais.

O que diz o substitutivo

O substitutivo apresentado por Augusto Coutinho confirma que os trabalhadores de aplicativos serão reconhecidos como autônomos, afastando expressamente o vínculo empregatício. A proposta garante que esses profissionais não sejam obrigados a aceitar serviços ou a cumprir jornada determinada pela plataforma, reforçando a característica de autonomia na prestação dos serviços.

Essa definição é o ponto mais controverso do projeto. Ao classificar motoristas e entregadores como autônomos, a proposta afasta direitos trabalhistas típicos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), como férias remuneradas, 13º salário, FGTS, aviso prévio e jornada de trabalho limitada. Em contrapartida, o texto busca estabelecer um conjunto de direitos e garantias específicos para essa categoria.

Direitos previstos

Embora afaste o vínculo empregatício, o projeto não deixa os trabalhadores completamente desprotegidos. O substitutivo prevê uma série de direitos que as plataformas deverão garantir aos profissionais cadastrados, incluindo:

– Contribuição previdenciária, com participação das plataformas no custeio

– Seguro contra acidentes de trabalho

– Transparência nos critérios de remuneração e nas regras de bloqueio ou desativação de contas

– Direito a contestar sanções aplicadas pelas plataformas

– Proteção de dados pessoais

A proposta também estabelece que as plataformas deverão informar claramente aos trabalhadores como funciona o sistema de cálculo da remuneração, quais são os critérios para distribuição de corridas ou entregas e em que situações um profissional pode ser bloqueado temporária ou definitivamente.

O debate sobre vínculo empregatício

A questão central do debate sobre trabalho por aplicativo no Brasil é se esses profissionais devem ou não ser considerados empregados das plataformas. Sindicatos e movimentos de trabalhadores argumentam que há subordinação, habitualidade e dependência econômica, elementos que caracterizariam o vínculo empregatício segundo a CLT.

Do outro lado, as empresas de tecnologia sustentam que oferecem uma plataforma de intermediação entre prestadores de serviço autônomos e consumidores, sem relação de emprego. Defendem que a flexibilidade é essencial para o modelo de negócio e que os trabalhadores valorizam a liberdade de definir quando e quanto trabalhar.

O substitutivo de Augusto Coutinho se alinha à posição das plataformas, consolidando legislativamente o entendimento de que não há vínculo empregatício. No entanto, busca um meio-termo ao estabelecer obrigações sociais e trabalhistas específicas para as empresas, ainda que em patamar inferior ao previsto na CLT.

Impacto para milhões de trabalhadores

Segundo dados de 2024, estima-se que mais de 1,5 milhão de pessoas trabalhem por meio de aplicativos de transporte e entrega no Brasil. Para muitos, essa é a principal ou única fonte de renda. A regulamentação terá impacto direto na vida dessas pessoas, definindo que direitos terão, como serão protegidos e quais obrigações as plataformas deverão cumprir.

A falta de regulamentação específica tem gerado insegurança jurídica tanto para trabalhadores quanto para empresas. Centenas de ações trabalhistas tramitam na Justiça com pedidos de reconhecimento de vínculo empregatício, com decisões divergentes entre diferentes tribunais. Uma lei federal traria mais previsibilidade para todos os envolvidos.

Críticas ao projeto

Entidades representativas dos trabalhadores têm criticado duramente o substitutivo. Argumentam que a proposta legaliza a precarização do trabalho e nega direitos conquistados ao longo de décadas de luta sindical. Para essas organizações, o texto favorece os interesses das grandes empresas de tecnologia em detrimento da proteção social dos trabalhadores.

Profissionais em direito do trabalho também apontam preocupações. Alguns avaliam que a ausência de limitação de jornada pode levar a situações de exaustão e acidentes, especialmente entre profissionais que precisam trabalhar muitas horas para atingir renda mínima. A falta de garantias como férias remuneradas e 13º salário também é vista como retrocesso social.

Defesa da proposta

Defensores do substitutivo argumentam que a regulamentação é melhor que o vazio legislativo atual e que o texto representa avanço ao estabelecer responsabilidades claras para as plataformas. Destacam que a previdência social, o seguro contra acidentes e a transparência nas regras são conquistas importantes para uma categoria que hoje não tem nenhuma proteção legal específica.

Parlamentares favoráveis ao projeto também ressaltam que a autonomia é característica desejada por muitos trabalhadores de aplicativos, que valorizam a flexibilidade de horários e a possibilidade de trabalhar para múltiplas plataformas simultaneamente. Para esse grupo, transformar todos em empregados com carteira assinada seria inviável economicamente e acabaria com o modelo de negócio.

Próximos passos

Se aprovado na comissão especial, o projeto seguirá para votação no plenário da Câmara dos Deputados. Por se tratar de projeto de lei complementar, precisará ser aprovado por maioria absoluta dos votos (257 deputados) para avançar. Depois, seguirá para o Senado Federal, onde passará por novo processo de análise e votação.

A expectativa é que o tema gere intenso debate tanto na comissão quanto no plenário. Movimentos sociais já anunciaram mobilizações para pressionar os parlamentares a rejeitar o texto ou fazer mudanças que ampliem os direitos dos trabalhadores. As empresas de tecnologia, por sua vez, têm feito lobby intenso pela aprovação do substitutivo.

A votação desta terça-feira é apenas o primeiro passo de um longo processo legislativo, mas será decisiva para indicar qual direção o Congresso Nacional pretende tomar sobre esse tema que afeta milhões de brasileiros e envolve bilhões de reais em uma das economias que mais crescem no país.

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